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O barba azul, a carne e a folia

publicado em 06 de Março / 2019 às 21:30 | Espaço do Leitor

*Carlos Laerte

O azul do céu era o mesmo a reluzir na barba espessa e branca do cavalheiro de listas à espera na calçada do Cubículo. O Carnaval estava só começando e, ainda que nascente, nos despedimos entre abraços e desejos de uma boa folia quando já anoitecia na velha nova Petrolina Antiga. Ali no mesmo canto e sobre as pedras ainda não asfaltadas por onde um dia passaram Piratas Reis do Samba, Lacerdinhas, Ioiôs e Marias Magas.

O ágil e desengonçado Zenildão caía no chão toda vez que uma moça passava e ali ficava fazendo de conta que era um desmaio, mas no fundo era apenas matreirice só pra ver o que vinha por baixo da saia das passistas. Os meninos de  Atrás da Banca saíam pelas cercanias de noitinha simulando uma briga com um pau ameaçando o outro. E aí, quando os desavisados das ruas da frente percebiam, já estavam com as mãos sujas e mal cheirosas.

Pela manhã na Praça do Bambuzinho, a folia só começava depois do banho com nossas possantes bombas d’água.  Ali na Souza Filho, por onde desfilavam as batucadas, escolas de samba campeãs e campeoníssimas segundo Simão Durando, não passava um carro ou um ser vivente que a nossa brincadeira não molhasse todo. E o “Mela-Mela” continuava nas manhãs de sol do Petrolina Clube, nas tardes de suor e cerveja da 21 de Setembro e no dia já amanhecendo no Iate Clube. “Raiou, resplandeceu, iluminou...”. Cantava a Charanga de José Coelho.  Seu Macedo da Principal, de sombrinha de frevo na cabeça, replicava entre volteios pelo salão e pulos na piscina. Quem não viu Nelson Moura de fidalgo e Inah Torres de melindrosa pensa ter sonhado com Charles Chaplin, pra cima e pra baixo, num sábado de Zé Pereira, lá na Guararapes. Mas foi tudo verdade ainda que se acabando na quarta-feira, taí Eribaldo Bezerra que até hoje guarda a fantasia.

Palmilhando agora pelas ruas que andei, vejo na barba azul de Justino homenageado as mesmas listas do folião que passa de celular na mão em troças e blocos desgovernados. Um carnaval em cada esquina e a multidão de corações democratas atrás da Frevuca. Fantasiadas crianças e seus cabelos pintados de tudo quanto é cor. Um bando de meninas de corpo tatuado ali na mesma esquina de Dona Josepha e uma música matingueira que soa pelos alto-falantes do antigo açougue municipal: “minha carne é de carnaval...”

*Carlos Laerte é poeta, jornalista e publicitário.

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