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O MILAGRE DE UMA NARRATIVA (Entre prosa, cafés e veredas)

publicado em 09 de Abril / 2019 às 23:00 | Espaço do Leitor

Uma dissertação de mestrado, defendida recentemente na USP pelo professor Denizart Fazio, adentra a terra ensolarada de Deus e o Diabo e reconstitui a trajetória da Efase, lançando luzes sobre a reflexão filosófica no campo da educação.

Para o trabalho de campo, o autor da narrativa esteve por diversas vezes no sertão, onde, sob a “sombra do umbuzeiro”, ou “entre cafés” e “encontros acolhedores”, conversou com contadores de estórias, com agricultores familiares, estudantes, professores e com lideranças sociais.

“Milagre em Monte Santo” (eis o título da obra) percorre a história da Escola Família Agrícola do Sertão, desde sua gênesis, num universo ainda marcado pelo indiferentismo, até sua fundação e consequentes desdobramentos.

O fio condutor da narrativa, como já fica evidente no título, é o do milagre arendtiano (de Hannah Arendt),  entendido enquanto capacidade humana de fazer surgir o novo.

Novo que está presente na atitude dos agricultores familiares que, diante da ausência de um modelo escolar capaz de educar e favorecer a permanência dos jovens no campo, conseguem enxergar “uma luz no fim do túnel” e fundam uma escola nas terras onde houvera duas guerras, a de Canudos e a guerra do Pimentel, cuja memória repousa na espingarda enferrujada do Seu Nininho.

Novo que do ponto de vista simbólico se acha inscrito na conduta do mesmo Seu Nininho, fincando o facão três vezes no chão para enterrar o lobisomem empacador, ou ainda na atitude corriqueira dos cavadores de poços, fazendo surgir água onde antes era só aridez, “excomunhão” e “areamentos”.

O vento da meia-noite, fustigando o arame farpado e fazendo a transição entre um dia que finda e outro que surge, é apresentado como metáfora da ação humana que dá lugar ao novo utópico. É o que se depreende das palavras do ex-aluno Adilson: “era como se a gente olhasse a utopia e pudesse apalpar”.

É imprescindível notar o quanto o despertar da consciência crítica (“aprendi que água não falta no Nordeste”), a referência à memória histórica (“nós somos Antônio Conselheiro”) e o senso de responsabilidade (“esta é a nossa tarefa”) foram fundamentais para o surgimento de tal projeto formativo.

À medida que “narra" e “educa”, o autor do texto acaba também por operar seu milagre – o milagre da partilha amorosa, tal qual Seu Cândido, cortando em pedaços a melancia e oferecendo-a aos presentes.

Além de contribuir para a reflexão científico/filosófica na área da educação, “Milagre em Monte Santo” torna-se também um importante referencial para aqueles que se propuserem "mergulhar" não apenas na memória da Efase, mas também na memória do sertão como um todo. Esperamos ver o texto logo publicado em livro para que um número maior de pessoas a ele possa ter acesso.

José Gonçalves do Nascimento

Escritor

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