Por que a chamamos de Senhor do Bonfim?

21 de Dec / 2019 às 23h00 | Espaço do Leitor

“Se hoje te chamam Bonfim, foi porquê uma imagem do Cristo crucificado flutuou sobre as águas e uma tempestade quase ceifou a vida de um comerciante de escravos no meio do Atlântico.”

O início dessa história aponta para a cidade de Setúbal em Portugal. É lá que surge a imagem do Cristo crucificado flutuando sobre as águas, que passou para a posteridade como Senhor Bom Jesus do Bonfim. Nesse tempo, por aqui, nem mesmo Missão do Saí existia. Então se concentre que já conto essa história, pois ao que tudo indica, determinou o nome dessa maravilhosa cidade chamada de Senhor do Bonfim.

Em 1669, em Portugal, na cidade de Setúbal, foi construído uma pequena igreja, que ficou conhecida como: “Anjo da Guarda”. Ocorre que nessa mesma cidade, tempos depois, encontraram uma imagem de aproximadamente 1,5 m, flutuando nas águas do Rio Sado. Era uma imagem de Cristo crucificado de braços abertos, como se estivesse em ascensão aos céus. Foi um espanto para a cidade que logo, pela devoção desmedida do período, passou a celebrar aquela imagem milagrosa. Discutiram qual o “fim” dariam para aquela imagem. Deveria ser um “bom fim”, pois aquele advento da imagem era coisa sagrada. Não tardou e a imagem, pela dinamicidade da língua, ficou conhecida como Nosso Senhor do “Bomfim” (escrita com M), e a pequena igreja, até hoje existente, que ora se chamava “Anjo da Guarda”, abrigou aquela imagem poderosa.

Com o passar do tempo, a igreja passou a se chamar Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, dado ao alto grau de visitação e preces feitas àquela imagem. Até mesmo o Rei de Portugal, D. João V, conhecido como príncipe perfeito, esteve na igreja fazendo promessas pela recuperação do seu genitor, D. Pedro II. Vejam como o santo se tornou popular em todo o país, tendo como devoto o próprio Rei. Então, note que o termo SENHOR DO BONFIM já era conhecido do mundo português bem antes do surgimento da Rancharia da Tapera.

Aqui no incipiente Brasil, o que tínhamos eram as Bandeiras e Missões adentrando ao país. a exemplo dos franciscanos, que ergueram algumas Missões em pontos variados do nordeste brasileiro, a exemplo da Missão do Saí, fundada em 1697, aos pés de um imenso monte em forma de cone, que posteriormente foi batizado de Monte Tabor – em outra oportunidade direi o porquê de Monte Tabor. Ali começou a florescer o povoamento no Piemonte, através da catequização. Foi criado um convento e um cemitério, além de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora das Neves. Tempos depois, já em 1720, Missão do Saí foi a sede da Comarca de Jacobina. Bem perto dali se formou um ponto de apoio aos viajantes e tropeiros nos arredores de uma lagoa. O nome desse lugar? Rancharia da Tapera.

“Tapera” é uma palavra de origem tupi-guarani que significa “casa velha” ou “aldeia abandonada”. É uma junção dos termos: taba e uêra. Taba significa “aldeia”, e uêra significa “abandonada”. De fato, a tapera, provavelmente feita de varas e coberta de palhas, era um ponto no meio da mata, que servia de apoio a quem por ali passasse. Era um ponto de descanso e renovação das forças. Tanto de gente como de animais e aí está o primeiro nome da nossa cidade: Rancharia da Tapera. Provavelmente era um ponto meio abandonado usado por todos que ali chegavam.

Acontece que a Tapera deu origem a um lugarejo que cresceu e foi alçado à categoria de “Arraial”, já com o mínimo de estrutura administrava. É aí que reside o mistério. Há um elo perdido; um momento mágico em que alguém sugeriu, quando a Rancharia evoluiu para Arraial, que batizassem com o nome de “Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera”. O pleito foi feito à Ouvidoria da Bahia em 1750, sob a alegação de que era preciso “Ordem e Administração da Justiça”, para afugentar os “malfeitores e vadios” que estavam a perturbar a tranquilidade. Aí está o real motivo da criação do Arraial. Mas por que se chamou Senhor do Bonfim da Tapera? Bom, Tapera não era novidade, todavia, Senhor do Bonfim, sim.

Deixe-me contar uma história a vocês. Existiu um português que residia na cidade de Salvador. Era um comerciante de escravos. Alguns homens miseráveis tem uma segunda chance na vida, assim como o inglês John Newton, criador da maravilhosa canção Amazing Grace, ele também era comerciante de escravos. O português Teodósio Rodrigues de Faria, também era capitão-de-mar-e-guerra da Marinha portuguesa. Era dono de três navios negreiros com os quais engrenavam o maior dos pecados contra Deus e contra a humanidade, a escravidão. Em uma madrugada, o dito capitão enfrentou uma tempestade no meio do oceano atlântico, viu a morte de perto e fez votos e promessas a Deus, que poupasse sua vida e em troca levaria para a cidade de Salvador uma imagem do Cristo crucificado emergido das águas. É exatamente o que você está pensando, o capitão era natural da cidade de Setúbal em Portugal e conhecia a história e o poder da imagem do “Bom Senhor do Bomfim”. A tempestade passou e sua vida fora poupada, e logo ele cumpriu sua promessa trazendo para a Bahia, em 18 de abril de 1745, uma réplica perfeita do Bom Senhor do Bonfim, existente em Setúbal. Além desta, trouxe também uma imagem de Nossa Senhora da Guia.

A fama do novo santo correu os confins da Bahia. Logo se iniciou a construção de um templo para abrigar a imagem miraculosa. E foi assim que surgiu um dos monumentos sacros mais importantes do Brasil, que é a igreja de Senhor do Bonfim em Salvador. A construção fora iniciada em 1746 e concluída, a parte interna do templo, em 24 de junho de 1754. Paralelo à construção da igreja em Salvador, iniciou a construção do segundo tempo na Rancharia da Tapera, por Custodio Alves dos Reis. A História relata que inicialmente era um templo precário, coberto de palhas, mas construído num alto, imitando a sagrada colina da igreja em Salvador. O mesmo Custódio Aves dos Reis, começou a construir o templo com pedras e alvenarias. Quando a obra estava quase pronta, este faleceu em 1755. Então o povo se uniu em torno do padre Anacleto Soares da Veiga e concluíram obra no mesmo ano de 1755. Ficou pronta a igreja com duas torres bem robustas, aparentando com a igreja da capital, também recém construída.

O fato é que a devoção a Senhor do Bonfim se alastrou como pólvora incendiaria pela Bahia, e, em algum momento, que ainda desconhecemos, a crescente Rancharia da Tapera, no tempo em que o justo pleito para transformação em Arraial foi empenhado, um iluminado, embalado pela devoção, deve ter sussurrado... batizem esse novo Arraial com o sagrado nome do Cristo crucificado, Senhor do Bonfim. E ao que tudo indica a sugestão fora aceita e hoje assim a cidade é conhecida. Não é de causar espanto, quando vamos buscar na história, a desmedida influência depositada no aludido santo. Até mesmo Theodósio e outros devotos, em forma de gratidão, tentaram criar oficialmente uma irmandade oficial com a finalidade de promoverem a devoção e a popularização do santo (Senhor do Bonfim) em toda a província da Bahia. A irmandade não existiu oficialmente, pois sua criação foi negada, mas extraoficialmente ela cumpriu o intento com sucesso.

Notem que a igreja do Bonfim, em Salvador, começou a ser construída em 1746, e a igreja da Rancharia da Tapera, começou a ser construída no mesmo ano da sua elevação à categoria de Arraial, em 1750. Pela proximidade cronológica, percebe-se que a Rancharia já estava sob a forte influência devocional do novo culto ao Senhor do Bonfim. O desejo de ser chamada pelo nome do santo, foi confirmada no ano de 1774, quando Gabriel Gonçalves da Silva, ofertou aos fiéis da cidade, uma réplica da mesma imagem presente no templo de Salvador, que já era uma réplica da imagem existente em Setúbal.

Então, bonfinenses, no ano de 1750, a Racharia, oficialmente passou a se chamar Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera. Tempos depois, em um novo pleito dos moradores, o Arraial foi elevado à categoria de Vila. Naquela ocasião, o príncipe regente D. João VI, em homenagem a sua mãe, Dona Maria I, rainha de Portugal, emitiu a carta régia em 08 de junho de 1799, criando a Villa Nova da Rainha. Ressalto que foram criadas diversas Vilas no Brasil nesse tempo, inclusive com o mesmo nome de Villa Nova da Rainha. Entretanto, quase 100 anos depois, quando a Vila se transformou em cidade, o antigo nome de Senhor do Bonfim reapareceu. Em 28 de maio de 1885, por lei, quando da criação do município, passou a se chamar: Cidade do Senhor do Bonfim. E ainda houve uma tentativa de mudarem novamente o nome para: Cidade Nova da Revolução, no final do ano de 1889, por ocasião da empolgante participação da cidade nos acontecimentos que precipitaram a proclamação da república no Brasil e na Bahia – Mas essa é outra história.

Dessa forma, penso que não cabe dúvidas, de que a cidade de Senhor do Bonfim, começa sua origem ainda mesmo em Setúbal, quando a imagem do santo flutua sobre as águas, e que chegou ao Brasil por ocasião de um comerciante de escravos, que na iminência da morte, fez promessas e acabou trazendo ao Brasil, aquilo que se transformaria em uma das mais poderosas devoções cultuadas no país, tão forte que até mesmo o sincretismo religioso, também se apropriou. O “Bom fim” que buscavam para a imagem do santo, deu-nos o “Bonfim, Terra do Bom Começo”.

Elielton Cordeiro da Paixão – Ten PM.

CFO PM - APM/BA - Prof. de História – UPE

3º BEIC – Juazeiro.       

 

Referências: Bonfim, Terra do Bom Começo – Adolfo Silva/1971;

1 -https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/misterios-do-bonfim-veja-partes-desconhecidas-da-maior-devocao-da-bahia/  

2 - http://salvadorhistoriacidadebaixa.blogspot.com/2011/11/nossa-postagem-sobre-os-bondes-de.html

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