Artigo: Proust, "O Peru de Natal" e o Coronavírus

22 de Dec / 2020 às 23h00 | Espaço do Leitor

A literatura é dessas coisas que entram na vida da gente e aí permanecem, ora em forma de luz, ora em forma de caminho. Melhor: parafraseando Proust, literatura é a vida plenamente vivida.

Tenho por algumas obras literárias um apreço quase devocional. Uma dessas obras é o conto “O peru de Natal”, de Mário de Andrade, que leio religiosamente sempre que se aproximam os festejos natalinos.

E o bom de ler um texto (ou ver um filme) repetidas vezes é que sempre que o fazemos descobrimos coisas novas. É exatamente isso que me ocorre cada vez que leio “O peru de Natal”, uma narrativa relativamente breve, mas de uma densidade extraordinária.

Há quem afirme serem os textos breves aqueles que mais conquistaram público ao longo da história. Nesta categoria figuram desde o “Manifesto Comunista” até os clássicos infantis. Sabemos, porém, que não é bem assim. Que o digam suas majestades “Dom Quixote” e “O senhor dos Anéis”, só para citar dois massudos bons de venda e de leitura. Mas admitamos: há textos breves que valem por milhares de páginas. Um deles, “O pequeno príncipe”, foi durante bom tempo um dos meus livros de cabeceira. E ainda hoje, no alto dos meus cinquentinhas, ele tem lugar cativo na minha amável e modesta estante.

Mas, como eu ia dizendo, sempre que leio o famoso conto do autor de “Macunaíma”, acabo por descobri coisas que não havia percebido na leitura anterior. Este ano, por conta da Pandemia, descobri duas coisas que – não nego – me deixaram um tanto feliz. A primeira, de cunho intimista; a segunda... Bem, a segunda, também de cunho intimista.

Destrinchemo-las.

No primeiro caso, descobri que o conto está falando de mim e para mim, e que sou eu – totalmente eu – o pai do personagem/narrador: um ser de “natureza cinzenta”, “desprovido de lirismo”, “duma exemplariedade incapaz, acolchoado no medíocre”; “um quase dramático, puro-sangue dos desmanchamentos de prazer”.

É como se o texto houvesse se transformado numa espécie de espelho através do qual pude vislumbrar de corpo inteiro o ser em que me transformei em virtude da crise pandêmica, responsável não apenas pela morte física, mas também pela morte espiritual.

Descobri também ser eu quem chora diante daquela ceia natalina, e que tal choro – misto de alegria e saudade –, pode significar o começo de minha redenção.

No segundo caso, descobri que o conto do mestre paulistano está falando de nós e para nós, e que aquele resumido grupo familiar, reunido em torno da ceia de Natal – a saber, o personagem/narrador, sua mãe, sua tia e os dois manos –, outro não é senão nós mesmos, no recesso da nossa casa, a celebrar com parcimônia e intimidade a festa do nascimento do Deus menino.

Enquanto rascunhava estas linhas, li uma nota saída em importante órgão de imprensa em que uma autoridade sanitária fazia recomendações sobre os festejos natalinos e aconselhava que tais ajuntamentos se limitassem a no máximo dez participantes, observando-se a duração de até uma hora. As recomendações têm base científica e visam conter a proliferação do coronavírus, no momento em que volta a crescer o número de contaminações.

A razão para celebração tão restrita, no caso da pequena trama andradiana, talvez seja a tentativa – ainda que inconsciente – de recompor a intimidade familiar (dos personagens), após a morte do progenitor.

Já no nosso caso, o motivo para tal atitude reside no empenho consciente e responsável pela preservação da vida como valor absoluto e inegociável, razão primeira e última de todo e qualquer esforço que se apoie no bom senso e na racionalidade.

Em ambos os casos, o amor – o amor que é a marca do espírito natalino – terá sempre a palavra final. É assim na ficção de Mário de Andrade; será assim na vida real de milhões de concidadãos cujas vidas serão poupadas graças ao respeito à ciência, à razão e ao senso de solidariedade que faz com que cada pessoa se sinta responsável por si e pelos outros.

E assim, enquanto a história segue seu curso, a literatura vai dialogando com a vida e sobre a vida. 

*José Gonçalves do Nascimento-Escritor

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