ARTIGO - O ROMEIRO

O romeiro é um farol sempre vigilante a dissipar a insistente escuridão que ainda teima em esconder o horizonte. Ele é todo regozijo, satisfação, entusiasmo, exultação, deleite, felicidade. No seu passo lento e concentrado está a chama ardente da esperança; no seu silêncio mais contido está o grito epifânico da vitória; no seu rosto compungido está o pulsar eufórico da alegria. Ele nunca está triste, abatido, desesperado, pois sabe que para além de todas as adversidades possíveis há algo maior a que recorrer.

O romeiro é um iluminado. Seus pés arrastam luz por onde quer que andem; suas mãos semeiam estrelas que tornam o cotidiano menos sisudo; seus olhos têm o brilho do sol em dias de verão. Tamanha é a intensidade da sua luz que por onde ela passa costuma deixar marcas indeléveis. Marcas à primeira vista insignificantes, frágeis, desprovidas de brilho, mas que acabam lançando raízes, formando bases, criando histórias. Uma cruz, uma escada de pedra, uma imagem sem cabeça podem ser o suficiente para moldar um povo, forjar uma cultura, firmar uma identidade.

O romeiro é movido pela fé. Fé metálica, inquebrantável, capaz de mover montanhas. O romeiro, pela fé, tudo pode, tudo alcança, tudo realiza. Nada lhe é impossível, mesmo os casos mais complexos e aparentemente inatingíveis. A sua vida é um caminhar constante ao encontro da fé. Uma busca distante e próxima ao mesmo tempo. A busca de si próprio e a busca do outro Absoluto. Busca dolorosa, desafiadora, porém gratificante, pelo menos aos olhos de quem crê. Suas dores e alegrias fazem parte do mesmo amálgama em que tudo se funde na perspectiva da fé incondicional, que tudo envolve, define e encerra. O santuário, o lugar de romaria, é o oásis reconfortante, a morada santa, o berço maternal, o retorno ao paraíso perdido, o destino certo na busca da intervenção do além, onde tudo começa e termina.

O romeiro é um sonhador. É um Dom Quixote a cavalgar à procura da ilha cobiçada; é um cavaleiro antigo a cultivar o amor distante pela donzela que ele apenas imaginou; é um menestrel medieval a entoar sua lira em meio às campinas verdejantes. O romeiro é um sonhador, mesmo que o seu sonho pareça insonhável, irrealizável – pelo menos para os que não têm o hábito de sonhar. Só quem tem a ousadia de sonhar é capaz de inventar novos mundos, tecer novos amanhãs, descortinar a extraordinária beleza da vida. O romeiro sonha enquanto caminha e seu sonho tem gosto de terra, tem cheiro de suor, tem jeito de sol nascente. Seu sonho nasce da experiência cotidiana, das noites longas e mal dormidas, das dores e angústias mais profundas. São sonhos sonhados com os pés no chão e com o olhar fixo no horizonte.

O romeiro é um solidário. Ao botar o pé na estrada ou colocar-se em frente ao mistério, ele nunca está sozinho. Em torno de si ou no seu íntimo mais profundo quase sempre há alguém a encarecer sua intercessão. Ele não reza apenas para si; sua prece transcende seus planos pessoais, alcançado também o irmão que ficou atrás. Seu coração não dorme, não repousa, está sempre povoado. Ele carrega o mundo inteiro dentro de si. Vive no outro e para o outro. Sua alegria e tristeza são a alegria e a tristeza do outro.

O romeiro é um confiante. Confia plenamente no que faz, no que pensa, no que vê, no que sonha. Nada o detém, nada o abate, nada é capaz de fazê-lo recuar no seu intento sagrado. Aprendeu a olhar para o alto, onde está o sol. E quem aprende a contemplar o sol dificilmente se acostuma a olhar para baixo.

José Gonçalves do Nascimento

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José Gonçalves do Nascimento